Vencedor do Óscar de Melhor Curta Metragem em Live Action em 2023, A Incrível História de Henry Sugar”, dirigido por Wes Anderson, adapta um conto de Roald Dahl e se destaca por sua proposta não convencional e cativante. Com apenas 39 minutos, a obra propõe reflexões sobre o sistema econômico no qual estamos inseridos e sobre a moralenquanto mescla elementos da linguagem cinematográfica e literária.  

Dividido pela crítica, o curta desperta opiniões adversas em relação a sua premissa: a trama é detalhadamente narrada por personagens ativos na história, em uma espécie de audiobook ilustradoEsse recurso, longe de ser um obstáculo, é justamente o que torna o filme tão interessante. Metonimicamente, sua estética dialoga com a experiência real de leitura – entrar em contato com uma história e, simultaneamente, construir mentalmente suas imagens.  

Alguns aspectos utilizados na construção dos cenários contribuem para essa sensação de adentrar a mente de um leitor, como o uso de cores vibrantes e escassez de perspectiva ou profundidade nos planos de fundoReforçando a ideia de que tudo se trata de uma construção narrativa, os atores interpretam múltiplos papeis ao longo do curta. Essa característica pode remeter à limitação criativa do cérebro humano ao imaginar rostos diferentes durante a leitura de alguma obra que contenha muitos personagens, reutilizando, assim, traços fenotípicos de atores ou pessoas já conhecidas.

Dev Patel interpretando um gestor financeiro
Dev Patel como gestor financeiro de Henry 

Dev Patel interpretando Dr. Chatterjee

A narrativa avança de forma ágil, com diálogos diretos e constantes, de forma a capturar a atenção do observador nos primeiros minutos. Sem conseguir tirar os olhos da tela também para não perder nenhuma informação -, me vi completamente intrigada pela peculiaridade do curta e pôr como à medida que ele avança, uma porta para uma reflexão mais profunda se abre. Levanta-se a clássica questão sobre dinheiro e felicidade – um leva ao outro? Eis a questão. 

O filme não condena o dinheiro em si, mas sim sua finalidade. Isso porque, durante a trama, Henry Sugar dedica-se integralmente a adquirir e acumular capital, seguindo estritamente a lógica capitalistaNo entantoao final de sua vida, mesmo tendo alcançado comodidade materialele só encontra satisfação genuína ao desenvolver um senso de utilidade social por meio da caridade que passa a exercerDessa forma, o filme também mistura o real ao utópico ao retratar acúmulo dinheiro – inicialmente símbolo de poder individual - transformando-se em um instrumento de responsabilidade social. 

Talvez seja uma viagem traçar tantos paralelos entre linguagem, leitura e ética econômica, mas tudo parece se encaixar na proposta do filme. “A incrível história de Henry Sugar” nos leva a pensar sobre a nossa relação com o dinheiro e o impacto real de nossas ações no coletivo – Vale a pena assistir 


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