A mais nova série da Marvel se consolida como uma comédia dramática com peso e a difícil jornada do sucesso.


Sabe, uma narrativa que nunca achei tão certeira assim se deve a pessoas dizerem que a Marvel segue uma fórmula completamente engessada sendo que principalmente nessa saga, tivemos muitas séries e filmes distintas de uma da outra, não só em tom, mas até mesmo em estrutura e roteiro, claro, existem variações, a qualidade não se manteve tão estável, mas essas são consequências de se fazer projetos fora do eixo, diria até que muitas reclamações são tão formulas quanto os produtos que eles julgam ser. Magnum, a mais nova série da Marvel, lançada em janeiro deste ano, prova firmemente que o Universo Cinematográfico da Marvel pode sim entregar coisas diferentes e mesmo assim se firmar como um produto de quadrinhos dentro desse universo, mesmo que não seja uma minissérie propriamente dita de Super-Herói.


A história segue Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen) tentando se firmar na sua carreira como ator em uma Hollywood ficcional no qual superpoderosos não podem atuar, fazendo com que o mesmo mantenha segredo de suas habilidades diante das pessoas que o cercam, ele então faz parceria com ninguém mais ninguém menos que Trevor Slattery (Sir Ben Kingsley), o falso Mandarim, para conseguir o papel de protagonista no filme remake do clássico super-herói desse universo, Wonder-Man (ou Magnum).


Yahya Abdul-Mateen II e Sir Ben Kingsley formam uma dupla imbatível como os atores Simon Williams e Trevor Slattery, ambos são ótimos atores individualmente, mas é a química entre eles que impulsiona a série de episódio para episódio. A improvável amizade entre Simon e Trevor é simplesmente encantadora. Uma das melhores cenas da série acontece logo no início, quando os dois atores estressados ​​sentam no apartamento de Simon e simplesmente relaxam trocando monólogos. É um lembrete de que ambos os atores e seus personagens têm talento genuíno.


Isso é impulsionado pela forma que o roteiro, bem pensada, faz uma narrativa narrativa volta de uma Hollywood desalmada se uma forma esperta e relevante e bem melhor elaborada que séries como A Franquia por exemplo, a crítica, que aqui não é aquela sátira completamente caricata e até mesmo Cartoon semelhante ao que Mulher-Hulk fez ao abordar o sistema jurídico, é de forma bem mais natural e intrigante, capaz de dialogar com o drama do personagem Simon que é um ator talentoso que, porém, revela toda sua insegurança fruto de décadas escondendo quem ele verdadeiramente é, ao ser o chato no set de filmagem que, para fazer uma mera ponta em uma série com apenas uma fala, precisa discutir o roteiro profundamente com diretora e roteirista até o ponto da exaustão absoluta que torna mais simples e econômico simplesmente demiti-lo. Essa sua característica é introduzida logo nos primeiros minutos e, somente com o tempo entendemos de onde ela vem.



Abdul-Mateen brilha ao trazer emoção, carisma e humor a um personagem com bastante potencial e que o roteiro estabelece em um arco narrativo forte para Simon. Um Super-Humano com poderes iônicos destrutivos. O ator captura com maestria todas as facetas do personagem e assim nos importar com a ascensão do Simon em Hollywood, e a série não se importa em mostrar que o personagem teve que batalhar muito para conseguir chegar aonde chega.


Kingsley já é uma figura conhecida no MCU, visto que a série continua seu arco narrativo iniciado em Homem de Ferro 3 (2013) e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021). Pode parecer um pouco aleatório trazer Trevor de volta, mas ele se encaixa perfeitamente como companheiro e, ocasionalmente, como antagonista de Simon. E para um personagem que, até então, era usado principalmente para fazer rir, é bom ver um lado mais sensível e genuíno de Trevor Slattery, ele com certeza rouba muitas das cenas, entregando humanidade a um personagem que eu simplesmente odiei em sua estreia a vários anos.


O único problema de ter dois personagens principais tão cativantes é que o restante do elenco luta para se destacar da sombra coletiva deles. A maioria dos personagens secundários é pouco desenvolvida e, na melhor das hipóteses, bidimensional, sejam a mãe (Shola Adewusi) e o irmão Eric Williams (Demetrius Grosse) de Simon ou o diretor do filme do Magnum, Eles cumprem perfeitamente seu papel, mas não que seja de extrema atenção. Acho que nos destaques do restante do elenco se dá ao DeMarr “Porta” Davis (Byron Bowers) e Von Kovak (vivido pelo Zlatko Buric) em uma atuação excelentíssima como um diretor performático e excêntrico. Todos os episódios têm cerca de meia hora de duração, e é difícil não se perguntar se a série não teria se beneficiado de alguns minutos extras dedicados a desenvolver melhor esses personagens secundários.


Inclusive, parágrafo especial ao episódio  4, focado em “Doorman”, apesar de este episódio ser quase totalmente dissociado do resto da série. O episódio 4 narra a triste saga de DeMarr Davis, um porteiro de boate que ganha o superpoder mais galhofa do mundo e o usa para conquistar seus 15 minutos de fama. No final, descobrimos por que os estúdios de Hollywood têm uma "Cláusula do Porteiro" que impede artistas com superpoderes como Simon de trabalharem em novos projetos, é divertido e trágico a jornada de 30 minutos de um personagem que sequer aparece no restante da série principal, e com uma participação hilária do ator Josh Gad interpretando ele mesmo.



É perfeitamente possível afirmar que Magnum não é uma série de super-heróis, pois essa característica, exatamente como os poderes que Simon tenta manter escondidos para poder ter chance na profissão que escolheu, fica quase que totalmente no banco de reservas, só realmente aparecendo em momentos muito breves e específicos, sequer sabemos da origem deles, apesar de que já sabemos um rumo certo deles logo de cara, e quem é fã sabe do que digo. No entanto, o que realmente interessa é que essa decisão criativa de Destin Daniel Cretton (diretor e corroteirista de Shang-Chi Andrew Guest, que trabalhou em Gavião Arqueiro) funciona muito bem. A série não poderia ter funcionado melhor no Selo Spotlight da Marvel, sendo completamente desprendido de referências ao universo maior, tirando a aparição do Departamento de Controle de Danos, sendo mais uma empresa que vai dar trabalho futuramente a casa.


Conclusão: Magnum é excelente, uma minissérie que traz camadas a uma empresa que tanto é criticada por fazer aquilo que já existe nos quadrinhos a décadas, e infelizmente, deve passar despercebido por muitas pessoas, pois tudo o que vem importando nos últimos anos são os “filmes fan service”, mas que de longe tem histórias humanas como as do tocante e também trágicas do Simon Williams e Trevor Slattery, espero vê-los novamente no MCU em um futuro próximo, seja em uma segunda temporada ou em outros projetos, com certeza, estarei lá aguardando.



Nota: 9

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